top of page

Quando uma derrota é uma derrota

  • há 1 dia
  • 4 min de leitura
Foto: Henrique Casinhas/SOPA Images/LightRocket via Getty Images
Foto: Henrique Casinhas/SOPA Images/LightRocket via Getty Images

Neste dia 8 de fevereiro de 2026 ocorreu a segunda volta (no Brasil, diz-se segundo turno) das eleições presidenciais em Portugal. António Seguro, do Partido Socialista, venceu as eleições com 67% dos votos[1]. O candidato de extrema direita André Ventura foi derrotado com 33% dos votos. Portugal tem um sistema de governo conhecido como semipresidencialismo, cabendo ao presidente a condução do Estado, inclusive a autoridade para dissolver o Parlamento e convocar novas eleições, e ao primeiro-ministro a condução do governo. O atual chefe de governo é Luis Montenegro do PSD/CDS-PP, coalizão de centro-direita. O atual presidente é Marcelo Rebelo de Sousa, do PSD.


A vitória de Seguro, do Partido Socialista, é um fato importantíssimo no contexto da política europeia e global. Os partidos de extrema direita, incluindo-se frações neofascistas e neonazistas, têm crescido eleitoralmente nos últimos 10 anos. Esses partidos e setores têm liderado governos ou compondo coalizões governistas na América do Sul, América Central e do Norte, Europa, África e Ásia. Seus ideais, valores e percepções passaram a circular com naturalidade no debate público.


O século 21 marca a integração e normalização dessa direita reacionária ao leque de correntes políticas do sistema democrático liberal. Os ideais reacionários e a extrema direita acabaram por deixar as margens do sistema político e econômico para se incorporar ao quotidiano da política. A identificação como sendo de direita e de extrema direita deixou de ser mero “rótulo”, pejorativo e intimidador, para ser uma afirmação de princípio e um mecanismo que permite angariar apoios e audiência.  


Este processo ocorreu em Portugal igualmente, sob a liderança do Chega e de André Ventura. Desde sua fundação, o Chega vem crescendo eleição a eleição, inclusive se compararmos as presidenciais de 2021 e essa agora de 2026.


Contudo, o reacionário foi derrotado neste domingo por uma ampla coalizão democrática que aglutinou setores e lideranças da centro-direita à esquerda, em defesa do legado do 25 de abril de 1974. Os candidatos à esquerda na primeira volta, Jorge Pinto (Livre), António Filipe (PCP) e Catarina Martins (BE) declararam apoio a Seguro desde a definição da segunda volta.


Diferentemente do Brasil, onde a centro-direita e a direita tradicional se deslocaram para a base da extrema direita se transmutando para as políticas da direita radical, em especial de extrema direita, alimentando a onda de cultuação ao reacionarismo que se espalha pelo mundo[2], parte desses setores em Portugal declarou apoio a Seguro. Luís Marques Mendes, candidato pelo PSD, José Miguel Júdice, líder do Iniciativa Liberal, Henrique Gouveia de Melo, candidato pelo PPM, Aníbal Cavaco Silva e Ramalho Eanes, ex-presidentes da República, entre outras lideranças de direita, declararam apoio como forma de impedir a vitória de Ventura e ameaças à democracia.


Também lideranças da sociedade, de diferentes setores, se manifestaram para obstaculizar o crescimento da extrema direita. Um conjunto de manifestos e declarações nas áreas da cultura, da saúde, não socialistas e católicos, entre outros, se manifestaram em apoio a Seguro, em uma movimentação de frente ampla e de negação do governo, a Ventura, ao Chega e suas ideias reacionárias.


Essa derrota não pode nos levar a considerar que a extrema direita foi remetida à insignificância política. Assim como a derrota de Bolsonaro no Brasil, em 2022, não ilide que esses setores continuam sendo protagonistas políticos relevantes da crise pela qual passa o neoliberalismo global. Ainda mais amparados na política e força de Donald Trump.


Contudo, a vitória de tipo frente democrática sobre a extrema direita é fundamental para buscarmos uma reação global contra o crescimento e a influência da extrema direita.

Esta vitória é menos impactante por uma hipotética expectativa de uma radicalização da política da Presidência de Portugal no sentido da esquerda. Não há indícios disto no programa apresentado por Seguro. Derrotar Ventura é importante pelo fato insofismável de que a extrema direita foi impedida, por meios democráticos, de chegar à Presidência e evitar as consequências de sua ação neste importante cargo da política portuguesa e suas consequências sobre a Europa e o mundo conectado.


Ventura sai derrotado, não destruído, mas insofismavelmente derrotado. Uma demonstração que a extrema direita, lá ou por aqui, não é imbatível ou indestrutível e que este movimento reacionário pode ser superado e os movimentos pela radicalização dos direitos sociais e da democracia podem retomar a iniciativa. O Brasil e a candidatura à reeleição de Lula são os próximos grandes capítulos deste grande combate global.


[1] Dia 2 de fevereiro passado perdi meu querido amigo Frei Sérgio Görgen. Poucos dias antes, ele me ligou preocupado com a possibilidade de vitória do neofascismo nas eleições de Portugal. Disse-lhe que tudo indicava que isso não ocorreria e que força popular de abril obstruiria o caminho dos reacionários. Assim foi.


[2] Desenvolvi este aspecto em minha tese de doutorado A emergência da direita reacionária e a atualização da hegemonia de classe no Brasil: os longos anos de 2010 a 2022. A tesse é acessível em https://lume.ufrgs.br/handle/10183/295449


*Este é um artigo de opinião e não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.

 
 
 

Comentários


Para contatarmos, escreva aqui

Obrigado pela mensagem!

© 2021 by Rogério Alves. Proudly created with Wix.com

bottom of page